Mar Sem Estrelas é uma ode à literatura. Uma homenagem aos leitores,
escritores e contadores de história, a todos aqueles que entendem o encanto de
ler. É a história de Zachary, um menino que descobre sua própria vida contada
em um capítulo de livro e, após decidir investigar, vai para um mundo feito de
pó de estrelas e magia. Por mais que eu tente, não acho que vou conseguir fazer jus a uma experiência de leitura incrível como essa, só a escrita da Erin já valeria o
livro inteiro. Ela tem o dom tecer realidade e fantasia juntos de uma maneira
tão linda e singular... Você está lendo e, quando menos espera, um universo
inteiro já se construiu ao seu redor.
Alternando a narrativa principal
com contos (aparentemente) soltos, Erin Morgenstern nos apresenta a um mundo que soa familiar e, ao mesmo tempo, é diferente de tudo que já vi. São livros
inteiros colocados em conjunto com a vida de Zachary, páginas recheadas de
metáforas que te fazem sentir como se entendesse tudo e nada ao mesmo tempo.
Cada uma das histórias parece fragmentos de algo maior e, parafraseando o próprio
livro, é como se houvesse mais acontecendo além das páginas.
E são esses pequenos contos entre os capítulos que fizeram com que eu me apaixonasse pelo livro. A narrativa principal (que acompanha Zachary) vai fazendo referências às suas próprias histórias, unindo tudo de uma maneira tão milimetricamente planejada que chega a assustar. Eu simplesmente amo como todos os detalhes se tocam e se entrelaçam. São histórias sobre Tempo e Destino, o sol e a lua, o Rei Coruja e a princesa, sobre artistas e piratas e veados na neve. Elas foram contadas de uma maneira tão bonita e melancólica que me tirou o fôlego, “Doces Dores” é um título incrivelmente apto para a coletânea.
É estranho, não é? Amar um livro. Quando as palavras nas páginas se tornam tão preciosas que parecem parte de sua própria história, porque são.
Entretanto, li algumas resenhas e percebi que muita gente reclamou justamente disso. Se você é o tipo de pessoa que gosta de entender tudo ou que prefere uma escrita mais direta, não sei se Mar Sem Estrelas seria a melhor indicação. Alternar o tempo todo entre livro (dentro do livro) e enredo principal deixa a história dinâmica, mas pode tornar difícil saber qual informação será importante ou não – são milhares de histórias e personagens e conexões, tanto que desorienta. É o tipo de livro que te mostra um detalhe ou interpretação nova a cada releitura, um outro caminho para desvendar os mistérios e conectar as coisas. Para mim, isso é parte do charme que torna o livro tão especial - a grande questão não é tentar entender ou encontrar uma lógica, mas permitir que a história flua e se deixar levar pela magia nela.
Confesso que acabei o livro com
um impulso louco de dar cinco estrelas, mas ele também tem
seus defeitos. A começar pelo Zachary, que é um pamonha. Ele é muito passivo, suas
motivações não são claras e parece que a única coisa que o faz andar é uma
mistura de destino e curiosidade. Por mais que me doa dizer, não sei se isso é o
bastante. Sinceramente, se tirassem os contos e a história dependesse só dele, teria perdido muito do brilho que ela tem. Alguns dos outros personagens me deram impressões parecidas: são
complexos e com muito potencial, mas parecem estáticos, sem um arco significativo.
A mesma situação se repete com o casal principal: Dorian e Zachary têm uma química ótima, mas cadê o desenvolvimento????? Tudo bem, os dois salvaram a vida um do outro algumas vezes, e tem aquela cena fofa na biblioteca, mas não houve tempo para desenvolver uma conexão mais profunda. Eles nunca interagiram de verdade e, do nada, se amavam perdidamente e sacrificariam tudo para se reunirem outra vez? Desculpa, clichês de paixão instantânea me tiram do sério.
(mas não vou ser ingrata: mesmo com todas as ressalvas, esses dois me fizeram surtar muito kkkk)
- Como está se sentindo? - pergunta Zachary.
- Como se estivesse enlouquecendo, mas de um jeito dolorosamente bonito
O mundo também não tem lá a melhor construção de todas, em especial na correria que são as últimas 100 páginas. Não vou entrar em detalhes para evitar spoilers, mas fiquei com a leve impressão de que a narrativa principal prometeu muita coisa e, na pressa para finalizar tudo, acabou deixando pontas soltas. Também não entendi muito se tem um conflito central - o mais próximo que chega disso é a Allegra e sua fixação por fechar todas as portas, mas mesmo ela não representa uma ameaça tão grande. O problema seria o declínio do Mar Sem Estrelas, talvez? Ou a questão do Tempo e do Destino? Não sei, apesar de a ideia ser ótima, parece que uma parte do plot se perdeu no meio daquele mar e nunca chegou a realmente fazer parte do livro.
No geral, posso afirmar que tive uma experiência muito boa. Não sei nem descrever tudo que eu pensei, vivi e senti perdida naqueles contos. Só posso dizer que cada página foi uma faca no coração e um abraço de magia, que a escrita é maravilhosamente poética e me levou para mundos mais distantes do que eu jamais poderia imaginar. Que agora meus sonhos são repletos de Sóis e Luas, de portas pintadas e portos distantes, de abelhas, chaves e espadas, de Tempo e Destino e um coração roubado pelas estrelas. Virar a última página me deixou com a certeza de que teria amado conhecer o Mar Sem Estrelas aos 12 anos, amei aos 17 e continuarei amando depois dos 60.
Um mercador de um porto distante uma vez disse que "todo mundo quer as estrelas. Todo mundo deseja o que existe fora de alcance, segurar o extraordinário nas mãos e guardar o impressionante nos bolsos". E eu agradeço a esse livro por me deixar ter um gostinho dessa sensação, mesmo que por pouco tempo.

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